Com ruas vazias, rendimento de motoristas de aplicativos como UBER cai mais de 60%
24/03/2020

Pedro Pita é músico e motorista de aplicativo. Aos 27 anos precisa trabalhar em duas profissões diferentes para poder pagar o aluguel de R$ 1.200,00 e as despesas da família, a esposa e dois filhos, um de 11 anos e uma de quatro.  Mas a pandemia do coronavírus (Covid 19) e as restrições impostas pelos governos ou pelas próprias pessoas para não se contaminarem, tiraram de vez seu chão. Como músico teve suspenso, por hora, um contrato para gravar um disco, os bares em que tocava fecharam por 30 dias e ele teve dois shows que faria no SESC cancelados. Com todo o agravamento da crise econômica, só restou a Pedro trabalhar como motorista de aplicativo, mas o seu rendimento dirigindo de 12 a 14 horas fazendo em média 20 corridas ao dia, caiu mais da metade. Antes sua diária ficava entre R$ 250,00 a R$ 280,00.  Ele saiu para trabalhar de sua casa, em São Bernardo do Campo, às seis da manhã e voltou às oito da noite. No bolso, exatos R$ 108,00.

“Eu senti a queda do movimento já no sábado, segunda-feira piorou, terça foi terrível, e na quinta, a queda foi brutal. Fiz oito corridas e cheguei a ficar duas horas sem tocar o aplicativo, sem nenhuma chamada”, conta Pedro. Do valor que conseguiu dirigindo 14 horas, ele ainda tem de descontar R$ 60,00 de combustível. Para piorar na ultima semana venceu o aluguel da casa e em breve vai vencer o aluguel de R$ 400,00 do veículo que utiliza para trabalhar. Pedro não sabe como fará para pagar os aluguéis e outras contas. “Minha mulher ganha R$ 1.600,00 por mês. Só vai dar pra comer. Vou atrasar todas as contas. Vou ter de renegociar o valor do aluguel com a imobiliária, com o dono do carro e ainda corro o risco de não aceitarem uma negociação. Estou sem perspectiva de trabalho na música e a situação dos motoristas de aplicativos é desesperadora”, diz.

Para piorar, o governador do estado de São Paulo, João  Doria (PSDB) e o prefeito Bruno Covas (PSDB) tomaram algumas medidas para que as pessoas evitem circular, como o fechamento de lojas, parques, shoppings e casas noturnas. Bares e restaurantes devem atender preferencialmente por entregas ou com 50% da sua capacidade. Com isso, as ruas e avenidas da maior metrópole do país praticamente se tornaram um deserto, o que diminui ainda mais a possibilidade de Pedro e outros motoristas encontrarem um cliente. “Sinceramente não sei o quê fazer, estou perdido, tentando ver o barco correr pra ver o que dá”, desabafa. E por enquanto não há luz no fim do túnel. O ministério da Economia, cortou a projeção de crescimento para o Produto Interno Bruto (PIB) para este ano de 2,10% para míseros 0,02%. Já outras projeções de instituições conceituadas como a Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que a economia brasileira poderá ter contração de 4,4% no ano.

Se isto acontecer, o Brasil entrará numa recessão profunda, e como Pedro outros 3,6 milhões de brasileiros que vivem do transporte estarão jogados à própria sorte. São taxistas, motoristas e trocadores de ônibus, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em dezembro do ano passado. A PNAD não traz o número exato dos profissionais que são apenas motoristas de aplicativos. No entanto, somente o aplicativo Uber tem no Brasil 1milhão de motoristas, diz o próprio site da empresa. A maioria recorreu ao bico depois de perder o emprego e não conseguir no recolocar. As taxas de desemprego começaram a subir depois do golpe de 2016 e ainda não estavam em patamares razoáveis na antes da crise de saúde pública começar. E hoje o exército de informais já soma 38,8 milhões de trabalhadores e trabalhadora e representam 41,1% da força ocupada no país.

Fonte: CUT

Foto: Olhar Digital